Não Leia
...esse trecho da obra Fahrenheit 451
Você pergunta: quando foi que tudo isso começou? O fato é que nós não tivemos muito o que fazer até a invenção da fotografia. Depois foi o cinema... no começo do século XX. o rádio. a TV. AS coisas começaram a ter massa. Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, ali, aqui, em toda parte. podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. havia espaço no mundo para toda espécie de gente. Mas a população dobrou, triplicou, quadruplicou. Filmes, programas de rádio, revistas e livros, tudo se nivelou para baixo, me entende?
Imagine a coisa. O homem do século XIX tinha cavalos, carruagens, tudo em camera lenta. Depois, no seculo XX, acelere sua camera. Condensações, resumos, tabloides, livros reduzidos. Tudo se reduz à piada, ao fim emocionante. Classicos reduzidos a programas de tv de 15 minutos. Havia muitas pessoas que só conehciam hamlet através de um resumo de página. O caminho era do jardim de infancia para a universidade e de volta para o jardim de infancia. Resumos, resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Uma coluna, duas frases, uma manchete! Assim, são expelidos todos os pensamentos desnecessarios que consumiam tempo!
A escolaridade se reduz, a disciplina é deixada de lado, as filosofias, a historia e as linguas sao deixadas de lado, aos poucos se deixa de cuidar da gramatica e da sintaxe, que acabam quase inteiramente esquecidas. A vida é corrida, o que conta é o emprego, o prazer está em toda parte depois do trabalho. Para que aprender alguma coisa a não ser manusear eletrônicos?
O zíper substitui o botão e o homem tem cada vez menos tempo para pensar enquanto se veste de madrugada, uma hora filosófica... E por isso melancólica. A vida se transforma numa grande palhaçada. Esvaziaram os teatros, só deixando neles palhaços. Mais esportes para todo mundo, espírito grupal, alegria... Ninguém precisa mais pensar, hein? Organizar, reorganizar superesportes. Mais caricaturas em livros. Mais imagens. O espírito se alimenta cada vez menos. Impaciência. Estradas cheias de multidões que vão a algum lugar, lugar nenhum. As cidades se transformam em motéis, as pessoas em ondas nômades, de um lugar para o outro, seguindo as fases da lua. Agora, vamos absorver as minorias em nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Respeite os direitos dos médicos, dos advogados, dos comerciantes, dos chefes, dos batistas... As pessoas desse livro, dessa peça, desse seriado de TV não pretendem representar verdadeiros pintores, pessoas de parte alguma. Quanto maior seu mercado, menos você controla controvérsias, não se esqueça disso! Todas as minorias do mundo defendendo seus interesses. E os escritores, cheios de idéias malucas, param de escrever. Eles fizeram isso! As revistas se transformaram num lindo monte de besteirada. Os livros, e quem disseram isso foram os críticos esnobes, era bobagem. Não era de admirar que ninguém comprasse mais livros. Mas o publico que sabia o que queria, com a cabeça no ar, fez as revistas de quadrinhos sobreviverem. E surgiram as revistas de sexo, em 3D. A coisa não veio de cima para baixo, ditada pelo governo. Não houve, no começo, nenhum decreto, declaração, nenhuma censura nada disso! Tudo foi feito pela tecnologia, pela exploração em massa, pela pressão das minorias, graças a deus. Hoje, graças a elas, você pode passar o tempo todo feliz, você tem permissão para ler as historias em quadrinhos, as revistas de moda, celebridades.
Com as escolas produzindo cada vez mais corredores, empresários, modelos, fisiculturistas, curiosos, torcedores, levantadores de peso e nadadores, em vez de pesquisadores, críticos, estudantes e criadores imaginativos, a palavra intelectual tornou-se, é claro, o palavrão que merecia ser. Você sempre tem medo do diferente. É claro que você se lembra daquele menino em sua turma de escola que era sempre o primeiro aluno, que dava as respostas certas o tempo todo, enquanto só outros ficavam sentados com cara de cretinos, com raiva dele. E não era esse menino sabido que era escolhido para “cristo” depois da aula? Claro que era. Devemos ser todos iguais. Nada nisso de todos nascerem livres e iguais, como diz a constituição; o que acontece é que todos são igualados. Cada homem é a imagem do outro. Aí todos ficam felizes, pois não há montanhas para fazê-los se acovardarem, contra as quais eles tenham que medir-se. Pronto! Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queime-o. Rache o espírito do homem. Quem pode dizer qual seria o alvo do homem lido? Eu? Eu não os suporto nem por um minuto. E assim, é nosso dever queimar todos os livros, como guardiões de nossa paz de espírito, o foco de nosso compreensível e justo medo de sermos inferiores. Censores oficiais, juizes e executores.
Você tem que entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias fiquem perturbadas e agitadas. Pergunte a você mesmo: o que desejamos neste país, mais que tudo? As pessoas querem ser felizes, não é? Não ouviu dizer isso a vida inteira? Eu quero ser feliz, é o que as pessoas dizem. Bem, não são felizes? Nós não as mantemos felizes? Não as mantemos em ação, não lhes damos divertimento? É só para isso que vivemos não é mesmo? Não é para o prazer, para a excitação? E você há de admitir que nossa cultura oferece isso em quantidade."

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